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ABYSSAL / ABISSAL
SOLO EXHIBITION // YOHANNAH DE OLIVEIRA
VERNIZ - SÃO PAULO - BR
CURATED BY MARINA BORTOLUZZI 
NOVEMBER 29TH TO DECEMBER 19TH, 2025

A B I S S A L

Curadoria por Marina Bortoluzzi​

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The unknown is not something to be feared; it is something to go toward.

"O desconhecido não é algo a temer, mas a direção da qual devemos seguir".

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A frase está no documentário "Fire of Love" sobre o casal de intrépidos cientistas Katia e Maurice Krafft que desvendavam os mistérios dos vulcões aproximando-se perigosamente de suas erupções. Katia dizia ainda que "a curiosidade é mais forte do que o medo"" Assim, como navegadores do inexplorado, eles aprenderam a conciliar sua obstinação com a tensão do inesperado.

Yohannah de Oliveira é uma artista visual que é fascinada por essas trajetórias corajosas de outsiders imersos em suas peculiaridades. De espírito aventureiro, ela igualmente explora territórios inóspitos e inusitados, seja em expedições reais ou em paisagens imaginárias dentro de si. Sua produção é marcada por esse mapeamento imagético de artefatos arqueológicos, elementos geológicos, formas neolíticas e texturas craterosas. A escavação se dá não apenas na pesquisa, mas também na prática de esculpir o gesso, riscar a tela e construir relevos que lembram fósseis topografias rochosas e vestígios de lugares nunca antes alcançados ou recém-descobertos, fragmentos ancestrais inventados.

Durante sua jornada de investigação, a artista cruzou caminhos com a Verniz. O espaço, idealizado por Luciano Tartalia, Fábio Matheiski e Paulo Bega, por sua vez, se distingue por uma seleção apurada de clássicos do design bra-sileiro, mobiliário vernacular, itens de época e, cada vez mas, peças autorais. Em um processo atento e refinado, os sócios exercem um olhar criterioso ao descobrirem objetos singulares, cujos materiais — como jacarandá, peroba-rosa e metais — carregam narrativas que se desdobram nas obras e estruturas apresentadas nesta exposição.

Nesse entrelaçamento de ideologias, esses desbravadores, movidos pela empolgação e pela inquietação diante da vida, vivenciam o que o crítico e historiador Hal Foster denominou de "virada etnográfica" na arte contemporânea desde a década de 60; e o que Augus-tin Berque, em Pensamento-Paisagem, chamou de "trajetividade" — a relação dialética e dinâmica entre o ser humano e o meio ambiente. O antropólogo Tim Ingold ainda complementa que este tipo de abordagem é um experimento, não no sentido científico, mas na abertura de possibilidades de interpretação. A obra de arte torna-se, portanto, um objeto de análise etnográfica.

E a prática artística, uma experiência fenomenológica e um processo de correspondência em que a matéria-prima e seu entorno atuam como participantes ativos, sugerindo potenciais imanentes de sua forma.

Yohannah e Verniz são guiados pela materialidade dos ob-jetos. Os elementos são entidades vivas, em diálogo com a artista e os designers, e apresentam também sua energia própria. A criação avança até certo limite, respeitando os fluxos, ritmos, reações e aspirações espirituais de cada matéria. Tanto a cerâmica quanto a tinta a óleo operam por meio de um ritual alquímico.

A colaboração entre as partes também é orgânica: não se sabe quem começou ou finalizou a peça. O processo criativo não é linear, assim como o ciclo de existência de cada obra — intersecções de muitas linhas da vida — originando uma coleção fora do tempo, que transforma o mobiliário em arte atemporal. Cada item desta curadoria sopra um ar de mistério e provoca um frio na barriga, com algo que nunca vimos antes, mas que instiga ir mais afundo, mergulhar.

As obras expressam essa necessidade de ir além, expondo a intimidade e vulnerabilidade da matéria e de seus criadores, por meio das transparências dos painéis de resina conectados ao buffet de madeira ou da organza à mostra nas telas com pinturas a óleo. As cerâmicas, de alta tem-peratura, incorporadas no banco de madeira de cedro ou na mesa de madeira remetem a um icerberg reverso, um vale subterrâneo ou a uma zona abissal. O totem ou escultura cerâmica esmaltada lembra um duto mágico, uma travessia mais rápida para chegar às dimensões inconscientes. Ele foi, inclusive, inspirado em uma madei-ra, encontrada pela Verniz, que por anos permaneceu submersa no mar.

Ainda que a escultura políptica de parede - placas de gesso do decalque do buffet — e uma das telas apresentem uma tonalidade mais terrosa, a paleta que sobressai é mineral e submarina, na predominância dos tons esverdea-dos, iniciados a partir da residência artística que Yohannah experienciou, em março deste ano, em Mallorca, na Es-panha. Um momento que trouxe coragem para que a artista pudesse acessar suas regiões mais obscuras e profun-das, com a maturidade da tinta a óleo que ela assume com firmeza.

Em algumas das telas percebemos um verde-petróleo escurecido; em outras, um verde turmalina azulado; ou ainda, o verde que se tunde ao azul e ao marrom; nas esculturas esmaltadas surge um verde mais claro, aquoso ou musguento. Tanto nas pinturas, quando na esmaltação, a luz sempre entra. Feixes, frestras, pontos focais, ou os pequenos poros da cerâmica, clareiam esse breu ou, como a artista relata, esse blur de um passado in-certo.

Da profundidade das coisas. De trazer à tona aquilo que está escondido. Yohannah navega pela improbabilidade, através do movimento e da repetição da goiva e da pince-lada. Cada camada é um degrau para dentro de seu senso de compreensão interna. O padrão que forma remete à na-tureza, reflexo de água ou líquido, a possibilidade de horizonte e paisagem. Entre o claro e escuro, luz e sombra, ausência e plenitude, vazio e vida pulsante, essas criaturas fantásticas desafiam a nossa imaginação. Na delicadeza e vastidão que ultrapassa a superfície do conhecido, cada obra emana uma frequência de força e coragem. Nas suas profundezas, a artista encontrou seus pares. E tem menos medo de atravessar essa escuridão majestosa e abissal.​

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Referências: BERQUE, Augustin. Pensamento-Paisagem, 2023. I FOSTER,

Hal. O Retorno do Real, 1996. I INGOLD, Tim.

Making: Anthropology, Archaeology, Art and Architecture, 2013.

A B Y S S A L

Curated by Marina Bortoluzzi

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“The unknown is not something to fear, but the direction we should follow.”

 

This phrase appears in the documentary Fire of Love about the intrepid scientist couple Katia and Maurice Krafft, who unraveled the mysteries of volcanoes by dangerously approaching their eruptions. Katia also said that “curiosity is stronger than fear.” Like explorers of the uncharted, they learned to reconcile their obstinacy with the tension of the unexpected.
Yohannah de Oliveira is a visual artist fascinated by these courageous trajectories of outsiders immersed in their peculiarities. With an adventurous spirit, she similarly explores inhospitable and unusual territories, whether in real expeditions or imaginary landscapes within herself. Her production is marked by this imagistic mapping of archaeological artifacts, geological elements, Neolithic forms, and craterous textures. The excavation occurs not only in research but also in the practice of sculpting plaster, scratching canvas, and building reliefs that evoke fossils, rocky topographies, and traces of places never before reached or newly discovered — invented ancestral fragments.
During her investigative journey, the artist crossed paths with Verniz. The space, conceived by Luciano Tartalia, Fábio Matheiski, and Paulo Bega, stands out for its discerning selection of Brazilian design classics, vernacular furniture, period items, and increasingly, authorial pieces. In a careful and refined process, the partners exercise a critical eye in discovering singular objects whose materials — like jacarandá, peroba-rosa, and metals — carry narratives that unfold in the works and structures presented in this exhibition.
In this intertwining of ideologies, these trailblazers, driven by excitement and unease before life, experience what critic and historian Hal Foster termed the “ethnographic turn” in contemporary art since the 1960s; and what Augustin Berque, in Pensamento-Paisagem, called “trajetivity” — the dialectical and dynamic relationship between humans and the environment. Anthropologist Tim Ingold further complements that this approach is an experiment, not in the scientific sense, but in opening possibilities for interpretation. The artwork thus becomes an object of ethnographic analysis.
And artistic practice, a phenomenological experience and a process of correspondence in which raw materials and their surroundings act as active participants, suggesting immanent potentials of their form.

Yohannah and Verniz are guided by the materiality of objects. The elements are living entities, in dialogue with the artist and designers, revealing their own energy. Creation advances to a certain limit, respecting the flows, rhythms, reactions, and spiritual aspirations of each material. Both ceramics and oil paint operate through an alchemical ritual.
The collaboration between the parties is also organic: it is unclear who began or finished the piece. The creative process is not linear, just like the life cycle of each work — intersections of many life lines—  originating a timeless collection that transforms furniture into atemporal art. Each item in this curation exhales an air of mystery and provokes a thrilling chill, with something we’ve never seen before, yet urges us to go deeper, to dive.
The works express this need to go beyond, exposing the intimacy and vulnerability of matter and its creators through the transparencies of resin panels connected to the wooden buffet or organza displayed on oil-painted canvases.

The high-temperature ceramics incorporated into the cedar wood bench or table evoke a reverse iceberg, a subterranean valley, or an abyssal zone. The totem or glazed ceramic sculpture resembles a magical conduit, a faster passage to reach unconscious dimensions. It was even inspired by a piece of wood found by Verniz, which remained submerged in the sea for years.
Although the polyptych wall sculpture — plaster slabs from the buffet’s decalque — and one of the canvases feature a more earthy tone, the predominant palette is mineral and submarine, with greens initiated from the artist’s residency in Mallorca, Spain, in March this year. A moment that brought courage for Yohannah to access her darkest and deepest regions, with the maturity of oil paint she assumes firmly.
In some canvases, we perceive a darkened petroleum green; in others, a bluish tourmaline green; or still, the green that darkens to blue and brown; in the glazed sculptures, a lighter, aqueous, or mossy green emerges. In both paintings and glazing, light always enters. Beams, slits, focal points, or the small pores of ceramics brighten this darkness or, as the artist describes, this blur of an uncertain past.
From the depth of things. From bringing to the surface what is hidden. Yohannah navigates improbability through the movement and repetition of the gouge and brushstroke. Each layer is a step into her inner sense of understanding. The pattern formed evokes nature, water or liquid reflections, the possibility of horizon and landscape.

Between light and dark, light and shadow, absence and plenitude, emptiness and pulsating life, these fantastic creatures challenge our imagination. In their delicacy and vastness that transcends the known surface, each work emanates a frequency of strength and courage. In their depths, the artist found her peers. And fears less to traverse this majestic and abyssal darkness.

References: BERQUE, Augustin. Pensamento-Paisagem, 2023. FOSTER, Hal. The Return of the Real, 1996. INGOLD, Tim. Making: Anthropology, Archaeology, Art and Architecture, 2013.

© 2025  by Yohannah de Oliveira.

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