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Constante expectativa alquimista

Updated: Mar 26

(...) "Meu caminho é meu e só. E eu sou isso tudo e isso pouco que você está vendo, uns trapos pendurados no topo de algum lugar existindo enquanto o resto do mundo continua girando."




Oi moço,


Pega essa cadeira de praia aí do lado, pode sentar aqui e sentir o vento bater na cara enquanto toma um café quente. Tudo o que eu quero


é estar presente aqui agora, nesse lugar específico de tempo e espaço onde cores se formam, e eu permaneço, existindo e fazendo algo novo existir, protegida de tudo e todos.

Transformando metal em ouro.


Os pincéis não me machucam, minhas palavras embora em alguns momentos cheias de rispidez não representam perigo algum… Elas são apagadas com o vento, com a tinta ou com a chuva. Aqui é meu lugar seguro.

Tudo bem olhar mais de perto, pode até me perguntar algo de vez em quando. É que meu trabalho é assim mesmo, expansivo, bagunçado, e sem muito sentido. Não é pra fazer sentido mesmo.

Eu tentei seguir linhas de raciocínio por muito tempo, até entender que ir pelos caminhos já traçados não me levariam a lugar nenhum. Porque meu caminho é meu e só. E eu sou isso tudo e isso pouco que você está vendo, uns trapos pendurados no topo de algum lugar existindo enquanto o resto do mundo continua girando.


Então eu continuo aqui, fazendo movimentos e traços sem sentido, sem saber exatamente pra onde esse traço pode me levar, que cor ele vai me pedir, e que movimento a gente vai iniciar junto.

Porque pintar pra mim é dança, vez em vez eu conduzo, e em outros determinados momentos me deixo conduzir, o tecido é livre, e vai pra onde quer, leva com ele a quantidade de tinta que ele desejar, eu estou aqui pra atender a sua demanda, escutar o seu grito. E ele me escuta de volta num eco infinito.

É aqui, neste lugar seguro que eu despejo a versão mais verdadeira e crua que acredito que sou, na expectativa que num passe de mágica, a insegurança ou o medo deixem de existir. Eu jogo tudo pra fora de mim, num processo cansativo, doloroso de me reconhecer, enquanto humana, como parte do todo a qual sei que no fundo pertenço.


Veja bem, seu moço. Eu não espero que você entenda tudo, e nem to pedindo a tua opinião. Aqui é o meu ritual. É neste espaço aqui que faz sentido a minha existência, a arte é a extensão do meu corpo. Esse pedaço de pano é um pouco de mim também, carrega o que eu carrego pra onde eu vou. Flui como eu fluo, diz o que eu penso. E se vende por tão pouco. Porque não existe valor que pague o pedaço de mim que eu deixei aqui.

Eu me sacrifico pra fazer essa arte existir, ela se sacrifica constantemente por mim, vendida por pouco, pra me permitir existir sã. Somos co-dependentes. Essa arte era um pano vazio e umas tintas jogadas antes de eu encontrar e soprar alma nela, agora ela flutua sozinha. Vai chegar longe por mim, vai atravessar o atlântico. E era só um pedaço de pano.

Então moço, não estranhe por eu levar a sério demais algo que pra você talvez pareça ser sem importância.


É que se eu não acreditar que isso tudo é de fato a minha verdade, então tudo o que eu acreditei até agora foi em vão.




Vou continuar aqui, jogando tinta em pano, despejando sentimento até que os meus braços estejam cansados, pra ver se consigo extrair mais um pouco dessa verdade de mim, e seja capaz de jogar pra fora de alguma forma bonita na expectativa constante de mudar a natureza das coisas.




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